O Projecto

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Nº de registo IGAC: 1324/2014 Nº de registo INPI: 527770

Trata-se de um projecto musical multi-artista, que visa dar a conhecer o Fado às gerações mais novas, dos 5 aos 12 anos, de uma forma leve e divertida, mas com uma componente formativa muito forte. Ou seja, apresentar e explicar o Fado com uma linguagem que as crianças entendam, com imagens e significados que compreendam e com as quais se identifiquem, sem perder as características base, antes promovendo-as. Servirá também para dotar os mais novos de ferramentas (temas, versos) que poderão cantar e que se adequem à sua idade e não sujeitá-los ao peso desmedido e extemporâneo de cantarem sentimentos que não são os seus, com palavras cujo significado não conhecem, com imagens que não entendem. Pretende-se igualmente envolver toda a família à volta do Fado, Património Imaterial da Humanidade, numa partilha de conhecimento e entretenimento. Pretende-se a edição de uma série de CD’s em formato CD Book, cada um com um tema específico que será transversal a todos os poemas que o compôem. Todos estes poemas, da autoria do poeta Tiago Torres da Silva, serão cantados em Fados tradicionais e gravados com a formação base para Fado: Guitarra Portuguesa, Viola de Fado e Baixo (ou Contrabaixo). Os temas do primeiro CD, cujo tema central é “O Fado”, foram todos ilustrados pelo escritor e cartoonista Bruno Matos. Tratando-se de um projecto multi-disciplinar, associados aos CD’s estarão também espectáculos ao vivo, workshops em escolas, passatempos, etc.

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É TÃO BOM SER PEQUENINO?

RUI VIEIRA NERY

No meio em que nasceu o Fado não havia muitas possibilidades de ser criança – pelo menos tal como hoje em dia concebemos a infância enquanto fase protegida, cheia de mimos e guloseimas, milagrosamente liberta das responsabilidades e preocupações dos adultos, e depois prolongada por uma adolescência também ela resguardada, de duração indefinida, animada por uma espécie de síndrome eterno de Peter Pan. Os meninos dos bairros fadistas eram muito pobres, cresciam num ambiente marcado pela miséria, pela exclusão e por condições duríssimas de sobrevivência. Assim que podiam escapar da obrigatoriedade da escola eram lançados no mercado de trabalho e passavam antes de tempo a uma vida pré-adulta que tinha pouco lugar para o devaneio e para a fantasia infantis.

Talvez por isso, a História do Fado está recheada de pequenos fadistas, reconhecidos como ícones pela sua comunidade e muitas vezes até referidos como o “miúdo” do seu bairro, mas raras vezes eles terão cantado propriamente letras sobre um suposto universo mágico da infância, livre da severidade do seu quotidiano. O mais célebre de entre eles, Fernando Farinha, o “Miúdo da Bica”, gravava aos onze anos – por sinal de uma forma impressionante, que nos deixa um nó na garganta – poemas graves sobre a condição humana (“Sou pequeno mas já tive / Muito tempo de saber / Que a gente pensa que vive / E afinal anda a morrer”, no “Descrença”, ao Fado Menor) ou censuras amargas às “mulheres perdidas” (“Toda vestida de seda / Sempre te vejo bonita. / Bonita sempre te vi / Mesmo vestida de chita”, no “Sempre Linda”, ao Corrido). Era um olhar azedo de adulto transposto para a voz de uma criança. Por mais que os versos de Linhares Barbosa proclamassem com nostalgia que “é tão bom ser pequenino”, este mundo não era – decididamente – generoso para com os meninos e meninas que o habitavam, nem lhes dava grandes esperanças de “ter esperança no destino”.

No mundo burguês respeitável da Literatura infantil oficial e das canções para crianças ensinadas nas escolas do Estado Novo, por seu lado, não havia espaço para o Fado. Gostava-se de trazer para o universo educativo institucional melodias tradicionais rurais, que eram aquelas em que se acreditava (tanto à Esquerda como à Direita, curiosamente) estar presente a verdadeira identidade cultural nacional. Mas desconfiava-se desta canção plangente que vinha dos bairros operários urbanos, manchada por associações históricas a rufias e prostitutas, e como tal, segundo todas as probabilidades, irremediavelmente contaminada por ideias imorais e subversivas potencialmente perigosas para a fragilidade da mente infantil e para a sua futura integração pacata na ordem estabelecida.

A proposta que Tiago Torres da Silva e Rodrigo Costa Félix nos trazem neste álbum é, por isso, profundamente original. Trata-se, nada mais, nada menos, do que propor um Fado cuja lírica possa ser capaz de entrar no imaginário infantil, e de assim se tornar também ele veículo de perguntas e de sonhos, de jogos e de brincadeiras, de curiosidades e de aprendizagens – de tudo aquilo, afinal, que associamos ao olhar de uma criança sobre a vida e sobre o mundo. As melodias são as do próprio tronco fundamental do género, desde o Menor e o Mouraria aos grandes fados de quadras, quintilhas e sextilhas de Alfredo Marceneiro, de Armando Machado, dos irmãos Miguel e Casimiro Ramos e de outros ainda que ficaram como pilares da tradição fadista da primeira metade do século XX. As vozes, a começar pela presença matriarcal de Celeste Rodrigues, para termos bem a noção de que estamos a falar de um património que está sempre em mudança mas também se passa como um tesouro de geração em geração, são as de uma dúzia de nomes que marcaram todos eles lugares próprios no panorama contemporâneo do Fado. As letras, com a verve habitual de Tiago Torres da Silva, um dos letristas actuais de Fado que mais conscientemente se enraíza na tradição nobre dos velhos poetas populares como Linhares Barbosa, Carlos Conde ou Henrique Rego, falam de alegria e de tristeza, de saudade e de reencontro, mas também tecem uma teia de fascínio em torno dos mistérios do Fado: o do seu canto, o do seu repertório, o das suas guitarras, o dos seus heróis e heroínas.

Fica aberto mais um caminho – e com estrada larga – para que o Fado possa também, sem com isso abandonar essa dimensão trágica de reflexão madura sobre as coisas da vida que lhe dá tanta da sua essência, conversar agora com um público de meninos de hoje, brincando com eles “como pedra colorida entre as mãos de uma criança”, e ajudando-os com isso – quem sabe? – a terem alguma vez aquela “esperança no destino” com que sonhava o Mestre Linhares.